Por Flávia Médici

Cartaz do Gran Circus Norte Americano – Wikimedia Commons

Niterói, Rio de Janeiro. Era tarde de 17 de dezembro de 1961.

O autoproclamado maior e mais completo circo da América Latina havia iniciado suas apresentações na cidade fazia dois dias e seus ingressos se esgotavam rapidamente. Não era à toa, com sua estrutura impressionante montada no centro da cidade, o Gran Circus Norte Americano era o grande acontecimento de Niterói. Todos estavam ansiosos para ver com seus próprios olhos o espetáculo que acontecia dentro daquela imensa lona verde e laranja de seis toneladas e que alcançava 17 metros de altura.

Nessa tarde especialmente quente de domingo, o circo estava com sua capacidade máxima: três mil pessoas compunham o respeitável público que se divertia com os palhaços, se encantava com os mágicos e se impressionava com a performance de mais de 150 animais que desfilavam à sua frente.

Mas o que era para ser uma tarde de diversão e alegria, em poucos minutos se transformou numa enorme tragédia.

O relógio marcava três horas e quarenta e cinco minutos. Faltavam 20 minutos para o encerramento da tarde de apresentação e o público não tirava os olhos da atração mais esperada de todo o espetáculo: as acrobacias do grupo de trapezistas que saltavam nas alturas. Os tambores rufavam para o incrível salto triplo quando a trapezista Nena, Antonietta Stevanovich, do alto do seu trapézio grita: “fogo!”.

Bastaram pouco mais de cinco minutos para que a lona do Gran Circus Norte Americano, em chamas, derretesse sobre o público. O mastro de 17 metros, tomado pelo fogo, caiu, e o clarão que se iniciou na parte inferior da cobertura, à esquerda da entrada, se alastrou rapidamente.

O pânico se instalou. As três mil pessoas que estavam debaixo da imensa e pesada lona se empurravam em desespero e buscavam uma saída, enquanto tinham seus corpos queimados e eram impedidos de respirar por causa da fumaça.

Um elefante, que naqueles minutos finais da apresentação estava a postos para entrar no palco, se assustou com o fogo e saiu em disparada atropelando quem estivesse à sua frente. Com sua força, conseguiu romper a lona e abriu o que foi uma das únicas rotas de saída para a multidão.

Quando os bombeiros chegaram a tragédia já estava instaurada e toda a estrutura do circo estava a baixo. Ao todo, 372 pessoas morreram na hora. O número de vítimas fatais chegou a 503. 70% delas eram crianças.

A comoção alcançou índices mundiais chamando a atenção de líderes de outros países e do então Papa João XXIII, e o acidente ganhou contornos de crime onde rapidamente alguém teria que pagar. A culpa recaiu sobre um ajudante contratado para a montagem do circo buscando se vingar da sua demissão.

Mas alguns fatos apontados pela perícia questionam a responsabilidade de tamanha tragédia e colocam em dúvida os reais culpados dessa que é considerada a história do maior incêndio que o Brasil já viu.

O Circo

O Gran Circus Norte Americano, na década de 60, estava entre os maiores circos da América Latina. Danilo Stevanovich, dono do empreendimento, não deixava de anunciar em seus panfletos todas as suas promessas: eram mais de 60 artistas de diferentes lugares do mundo; 150 animais, entre eles elefantes, leões, girafas e tigres; e a nova lona de náilon, moderna e impermeável, feita especialmente para a ocasião.

O circo visto por cima – Companhia das Letroas

Subir essa lona que pesava seis toneladas não era fácil. Além dos empregados fixos do circo, Danilo Stevanovich convocava mais cinquenta trabalhadores para ajudar na montagem, que levava cerca de uma semana.

E é aqui que entra um dos personagens principais dessa história. Adilson Marcelino Alves, conhecido como Dequinha, estava nesse grupo de mão de obra local convocada para subir o circo. Com 21 anos, ele tinha passagens pela polícia por roubo e apresentava problemas mentais. Após apenas dois dias de trabalho, Stevanovich o demitiu. Testemunhas dizem que Dequinha ficou inconformado e passou a rondar as imediações do circo nos dias que seguiram.

Dia 15 de dezembro, a grande estreia. Dequinha tenta entrar sem ingresso para assistir à apresentação mas é barrado pelos funcionários do circo que o reconhecem. Dia 16 de dezembro, segundo dia do espetáculo. Dequinha tenta novamente e dessa vez, também barrado, discute com um dos funcionários quem ele acusa ter sido o culpado por sua demissão precoce. Colocado para fora da arena do circo, Dequinha jura vingança.

Essa foi a história levantada pela polícia e que levou a prisão de Dequinha. O caso, tido como incêndio criminoso, foi encerrado. Com a ajuda de dois comparsas, Walter Rosa dos Santos, conhecido como Bigode, e José dos Santos, o Pardal, Dequinha aguardou o clímax final do espetáculo do dia 17 de dezembro para jogar gasolina na lona e acender um fósforo.

Os destroços após o grande incêndio / Crédito: Jorge Peter/Revista Flagrante

A Revista Manchete, na época, divulgou o cenário de caos que o incêndio provocou, abre aspas: “Foi de fato a maior tragédia ocorrida até hoje no Brasil; não só num circo, mas em qualquer local de diversão pública. Como tochas vivas corriam crianças e adultos, atropelando-se uns aos outros, na tentativa desesperada de alcançar a estreita passagem por onde devia escoar-se toda a enorme multidão. Muitas pessoas caíram e foram pisoteadas, fazendo os esmagamentos quase tantas vítimas quanto as queimaduras.” fecha aspas.

Para piorar a situação, o Hospital Antônio Pedro, o principal de Niterói, estava em greve. A população literalmente arrombou a porta do local e os médicos foram sendo convocados pela rádio para se apresentar. Até mesmo cinemas e teatros de Niterói e cidades vizinhas tiveram sua programação interrompida para saber se havia entre os espectadores qualquer médico que poderia ajudar.

As vítimas, com seus corpos completamente queimados e mutilados, chegavam ao hospital socorridos pelos habitantes da cidade, já que não havia ambulância suficiente para resgatar tantos feridos.

Os acontecimentos no decorrer dos dias após o incêndio dão um bom cenário da dimensão da catástrofe:

  • Os cadáveres, carbonizados, foram levados ao estádio de futebol Caio Martins. Foram todos enfileirados no gramado e cobertos com lençóis brancos doados pela população, onde aguardavam o reconhecimento de amigos e familiares. Esse processo durou dias.
  • As agências funerárias não conseguiam absorver a enorme demanda de caixões que surgiu de uma só vez. O governador do Rio de Janeiro, Celso Peçanha, convocou todos os marceneiros e carpinteiros da cidade para ajudar na fabricação de caixões, quando trabalharam dia e noite. A imprensa da época os batizou de “a maior e mais triste carpintaria do mundo”.
  • Os cemitérios municipais da cidade lotaram e a solução mais rápida foi usar uma área descampada do município de São Gonçalo, vizinho a Niterói, para enterrar o restante dos corpos. Para ajudar na abertura das sepulturas, foram convocados presidiários avaliados por bom comportamento, que cavaram valas rasas em sua maioria para os corpos das crianças.
  • Filas de voluntários eram vistas em hospitais de diversas regiões do Brasil para a doação de sangue para as vítimas que ainda lutavam para sobreviver.

O fato do hospital estar fechado no momento da tragédia foi o impulso que faltava para os cerca de 300 mortos contabilizados inicialmente passarem para 400. A contagem oficial ultrapassaria as 503 vítimas mortais se não fosse pela doação de sangue e material, ou o trabalho intenso de voluntários e médicos de todo o país e do exterior.

Diante de tal cenário caótico e desolador, a comoção internacional foi enorme. O Papa João XXIII, além de enviar uma doação em dinheiro, mandou rezar uma missa em homenagem às vítimas. A ajuda chegava de todos os lugares: Chile, Argentina, Uruguai e Estados Unidos. Eram enviadas ataduras, antibióticos, soro, plasma sanguíneo e milhões de centímetros cúbicos de pele seca, usadas para fazer enxertos.

Com a atenção do mundo voltada para o caso, a pressão para encontrar os culpados era grande. Dias depois do incêndio, um inquérito policial foi aberto. Danilo Stevanovich, o dono do circo, antecipou-se a qualquer andamento das investigações policiais e afirmou que só mesmo um crime poderia justificar o incêndio. Aproveitou para levantar a hipótese de um ex-funcionário, o Dequinha, a fim de se vingar por sua demissão, ter sido o responsável pelo fogo.

Porém, outras denúncias apareciam conforme o caso era investigado. Jornais trouxeram a notícia de que o circo não tinha condições de funcionar. Segundo informações preliminares de peritos, havia precariedade elétrica nas instalações, ausência de extintores de incêndio, presença de capim seco no entorno do circo e falta de saída de emergência. A dúvida não demorou a surgir na população. Como as autoridades poderiam autorizar o funcionamento de um estabelecimento previsto para receber milhares de pessoas nessas condições? 

Outra revelação dividiu a opinião pública sobre os reais responsáveis pela tragédia. A moderna lona anunciada no próprio panfleto do circo como sendo fabricada em náilon, era, na verdade, feita de algodão revestido de parafina. Parafina, a matéria-prima das velas, é um material altamente inflamável.

Mas mesmo diante de situações tão controversas, Dequinha de fato confessou a autoria do crime realizado junto a seus outros dois comparsas.

Palhaço que estava prestes a entrar em cena quando o incêndio começou – Francisco Moreira da Costa/Revista Flagrante

Tanto Bigode como Pardal se declararam inocentes nos primeiros interrogatórios. Apenas consta nos relatórios do caso a declaração de ambos como culpados em depoimentos que fizeram no departamento do Dops (Delegacia de Ordem Pública e Social muito usada na época da Ditadura Militar brasileira conhecida pelas torturas e prisões). Nesse caso não havia nenhuma testemunha, apenas os próprios policiais.

A mãe de Dequinha, em entrevista, comentou que seu filho era diagnosticado com doença mental e por isso tinha a mania de assumir a culpa por crimes que não havia cometido. O fogo no circo seria mais um desses casos.

O duelo era grande e o cenário complexo. De um lado, opositores do governo alegavam que as autoridades tentavam se livrar de qualquer responsabilidade – afinal, o circo foi autorizado a funcionar mesmo sem as mínimas condições para a segurança do público, como saídas de emergência e extintores de incêndio. Do outro lado, a polícia mostrava pouco se importar para as teses de acidente e negligência que eram disseminadas pela imprensa. Preferiu ir ao encontro da declaração dada por Stevanovich, de que apenas um crime justificaria a tragédia e já apontando um culpado para pagar por tantas mortes.

O jornalista Mauro Ventura, em seu livro “O espetáculo mais triste da terra – o incêndio do Gran Circus Norte Americano”, comenta, abre aspas: “Ninguém processou o circo. Muita gente achava que ele era americano por causa do nome, mas era brasileiro. Na época não havia essa cultura de responsabilidade civil, sequer se formou uma associação de vítimas do incêndio.” fecha aspas. Ele acrescenta ainda que nenhuma vítima da tragédia recebeu qualquer indenização.

Em outubro de 1962, Dequinha foi condenado a 16 anos de prisão e mais seis anos de internação em manicômio judiciário, como medida de segurança. Bigode também foi condenado a 16 anos. Cumpriu 13 e foi solto, em 1975, em regime de liberdade vigiada. Pardal foi condenado a 14 anos de prisão e solto após cumprir a pena.

Em janeiro de 1973, onze anos após sua condenação, Dequinha fugiu da penitenciária de Niterói e foi encontrado morto com 13 tiros. A polícia nunca identificou o autor da execução.

No lugar da tragédia, no coração da cidade de Niterói, nada marca o local. Nem um memorial às vítimas ou uma homenagem aos heróis que as socorreram.

A tragedia

O Gran Circus Norte Americano era gigante. Ele comportava em suas arquibancadas tantas pessoas quanto o Cirque du Soleil comporta hoje em dia. Seu trágico fim resultou no dobro de vítimas fatais dos incêndios do edifício Joelma – 189 vítimas em 1974 – e da Boate Kiss – 242 vítimas em 2013. Isso nos mostra que as questões em aberto que rondam essa história até hoje minimamente fizeram nosso país perder a oportunidade de aprender algumas lições.

Uma das vítimas da tragédia – LABHOI UFF

Ainda que Dequinha tenha sido o mandante do incêndio, isso isenta a responsabilidade das autoridades do governo? Afinal, foram elas que autorizaram o funcionamento do circo mesmo após a perícia ter confirmado as condições precárias e a falta de qualquer plano de emergência.

Não fosse a escolha da parafina no material da lona, que fez com que o fogo se espalhasse muito rapidamente, talvez ninguém teria morrido. Mas a polícia, a imprensa e o governo, considerando a origem criminosa, jamais responsabilizaram Danilo Stevanovich. Sem receber qualquer ação judicial, ele seguiu carreira no ramo circense até sua morte, em 2001.

Passados 60 anos da história que marca o maior incêndio já vivido no Brasil e pior desastre circense do mundo, diversas dúvidas fazem com que a tragédia do Gran Circus Norte Americano não tenha um ponto final.

Seria mesmo Adilson Marcelino Alves, Dequinha, o responsável pelo incêndio ou ele assumiu o caso devido ao seu distúrbio mental?

Sua fuga do presídio seguido do seu misterioso assassinato não coloca ainda mais dúvidas na rápida responsabilização dele pelo crime?

Mas e você? qual a sua teoria? Nós fizemos um Episódio muito legal sobre esse acontecimento em nosso Podcast : Espaço Indecifrável, confere aqui em baixo que ficou muito bom! 

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24 respostas para “A Tragédia do Gran Circus Norte Americano”

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  2. Avatar de Luana Neves
    Luana Neves

    Que Episódio foda!!!! Acabei de escutar, realmente é uma história complexa! tá na cara que os donos foram responsáveis mas que loucura essa vingança do zekinha!